Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Por Ana Carolina Battisti

Um provérbio comum proferido pelas pessoas ao se referirem ao uso do poder nas organizações éManda quem pode, obedece quem tem juízo. O leitor já deve tê-lo escutado diversas vezes.

A frase demonstra, entretanto, uma distorção do verdadeiro significado da palavra poder. Ela mostra uma relação patológica entre duas partes. De um lado, um indivíduo que abusa da autoridade para conseguir algo; do outro, um indivíduo que se curva ao papel de vítima, sob a crença de que a opção mais segura é obedecer cegamente.

Cabe aqui uma distinção importante entre o poder pessoal e o poder de posição. O poder pessoal é uma energia interna, legítima e permanente que nos torna capazes de influenciar outras pessoas. Potencialmente todos nós temos condições de exercê-lo de modo legítimo, pois já nascemos com essa habilidade. Basta pensarmos em um bebê ou em uma criança pequena e a forma como esta influencia e gera grandes transformações à sua volta, antes mesmo de aprender a falar.

Por outro lado, ao usar o poder de posição, o indivíduo se apoia na hierarquia ou em fatores externos – os chamados símbolos de poder – para conquistar seguidores ou chegar a seus objetivos. São diversos os símbolos de poder em nossa sociedade: o cargo ocupado pela pessoa na organização, o modelo de carro que ela dirige, possuir ou não celular corporativo, o tipo de cartão de crédito que utiliza, o bairro ou cidade em que mora, sua classe social, a faculdade em que estudou. Os símbolos de poder são infindáveis e nunca deixarão de existir. O problema é o uso que se faz deles.

Um dia desses, ao esperar na fila do raio-X para acessar a sala de embarque do aeroporto, vi uma senhora aos berros. Ela esbravejava com a funcionária da Infraero, que pediu que ela abrisse sua mala após ver um objeto pontiagudo. Passaram-se poucos segundos antes da senhora soltar, ameaçadoramente: Sabe com quem você está falando?  Este é um exemplo clássico do uso do símbolo de poder. Implicitamente, a mensagem é: Não importa se você tem um protocolo a seguir. A mim ele não se aplica, pois sou especial e importante.

Se por um lado o comportamento típico de quem exerce o poder de posição é o uso de símbolos, o comportamento de quem exerce o poder pessoal é a assertividade. Ser assertivo significa ter umaclareza de propósito e expressá-lo de forma positiva, confiante e persistente. A pessoa assertiva leva em conta o próprio direito e o direito dos outros quando persegue um objetivo. Ela é honesta, direta, confiável, vai direto ao ponto, é uma boa ouvinte, é respeitosa, busca cooperação e sabe negociar. Vejamos um exemplo:

Imagine que João é morador de um prédio e compartilha o hall de serviço com o seu vizinho. No edifício existe coleta seletiva de resíduos e, por isso, cada hall tem duas lixeiras: uma para o lixo comum e outra para o reciclável. Já não é a primeira vez que, ao levar seu lixo para fora, João percebe que o  vizinho ignorou a distinção e depositou o lixo dele no lugar errado. Na primeira vez, o próprio João o arrumou. Na segunda, mandou o recado pela esposa do vizinho. Mas agora sua paciência está chegando ao fim. O que fazer? Esta é ocasião perfeita para João colocar em prática o seu poder pessoal.  Qual das atitudes abaixo ele deveria tomar?

(1)    Procurar o síndico, para que ele próprio tome uma providência. Afinal, é ele quem tem o poder para resolver essa situação de uma vez por todas. Só que o síndico está viajando, então João deverá aguardar alguns dias.

(2)    Tocar a campainha e falar em alto e bom tom que, como morador mais antigo do prédio, não admite mais que isso aconteça. Dizer que da próxima vez jogará o lixo de volta na porta dele.

(3)    Nenhuma das anteriores.

A primeira atitude tende à passividade. Para evitar conflito, João delega a questão para outra pessoa que, a seu ver, é a única que pode resolver a situação, já que é síndico e, portanto, tem poder de posição.  Como o síndico não está disponível, ele abre mão de seu direito até que o outro retorne de viagem. Você já viu isso acontecer? Vê-se muito desse comportamento nas organizações.

Na segunda alternativa, João atua na contrapartida da passividade: com agressividade. O indivíduo com comportamento agressivo usa símbolos de poder ou abusa do mesmo para obter obediência. Ele busca alcançar seus objetivos sem diálogo, levando em conta apenas suas próprias necessidades. Em alguns casos, pode usar de ironia, manipulação ou sedução para conseguir o que quer.

É mais efetivo que o João use o seu poder de influência, seguindo o roteiro da assertividade. Como poderia ser? Imagine a seguinte cena:

  1. Objetivos: João interfona para o vizinho e pergunta se é um bom horário para falar com ele. Sem muitos rodeios, apresenta a razão principal para a conversa.
  2. Fatos: De forma objetiva, João aborda a situação que o incomoda, expondo os fatos que ambos concordam. O vizinho não tem depositado o lixo nos recipientes corretos, o que gera um trabalho adicional para a equipe de limpeza do prédio.
  3. Sentimentos: João expõe que se sente incomodado com a atitude de João, pois valoriza a iniciativa do prédio em reciclar o lixo e se coloca no lugar dos funcionários, que já estão sobrecarregados. Nesse momento, o vizinho o interrompe e diz que sempre confunde qual lixeira deve receber cada tipo de resíduo.
  4. Pedido: João rapidamente explica a ele como funciona e expressa seu desejo de que o vizinho passe a utilizá-las de maneira correta.
  5. Combinado: Os vizinhos combinam de sugerir, na próxima reunião de condomínio, que a lixeira de resíduo reciclável seja sinalizada com um adesivo para que nenhum morador tenha mais dúvidas.

Lendo assim, parece fácil. Na prática, existem fatos que podem nos levar a escolher outros caminhos. No entanto, vale à pena experimentar novas formas de ação que, ao final, podem se mostrar muito mais efetivas e sustentáveis.

Exercer influência significa lançar mão do poder pessoal para gerar transformação, independentemente da posição que você ocupa na organização. Para ter sucesso, é imprescindível ter clareza de propósito e permitir-se ter o direito de expressar suas necessidades, opiniões, dúvidas, de forma direta, honesta e respeitosa. Por outro lado, deve-se estar aberto a negociar e mudar de opinião ao longo do processo.

O exercício do poder deve estar a serviço do bem comum.  Conforme escreveu um autor desconhecido:O chefe inspira medo. O líder inspira entusiasmo. O chefe diz “eu”. O líder diz “nós”.

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